ORELHÃO PARA SURDOS

October 15, 2007 § 1 Comment

“vedo tudo
boca, olhos
não como não à visão
como o que não quer ver
é que me fere
sorria, você sorria está sorria sendo sorria ferido
eu me protejo, auxílio
me ferem pessoas, coisas e as coisas das pessoas
são muitas coisas

a demasia me fere e eu faço o curativo
é um bloqueio que se faz imperativo

é pra não entrar esses insetos
um besouro pelo olho pode trespassar até meu cérebro
na veloz cidade, sabe?
uma mosca pela boca aberta pode zunir até o pulmão
moscalibre, mosca bala, sabe cabala “vamos acabá-la”, maquinação?

fico assim

não de nóia
é mais como entrever pela clarabóia

porque a tampa deixa o escuro do poço
tampa mas também expõe até o osso

fico assim

antinsético
cético

um grito cego mudo
de que já vi isso tudo

não acredito
nem credito
não absorvo
o embaraço de não querer o bendito
comportamento estorvo

a pior negação é a do cego mesmo
mas eu não sou cego, eu só nego
sonego impostos e impostores impostados
de almas/imóveis e seus corretores

e no mais, funciona em mão dupla
contém as lágrimas do chorar de rir do que não tem graça nenhuma
também as lágrimas de crocodilo e as de sangue cristão
aquele de falsa compaixão, misericórdia ególatra mesmo

vedo tudo
boca, olhos
não como

me fere e as vezes eu sumo
mas também não arrefeço, apareço
é que do que aqui se vende, não consumo”

Poema de Vinícius Alcadipani, parceria a partir da performance, impresso nos lambes da foto.

Foto: Tábata Costa/ Tábato Casta.

* Orelhão, em algumas partes do Brasil, é o apelido dos telefones públicos devido ao seu formato.

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